Hermópolis
Os anacoretas da Tebaida e Santo Onofre
Índice
Tradução do original grego. As passagens bíblicas e patrísticas foram traduzidas diretamente do grego; o texto original das passagens mais longas pode ser apresentado por baixo delas.
Os monges do Egito
Os monges do Egito, no século IV depois de Cristo, seguiram à letra, na sua vida monástica, o ensinamento divino de Nosso Senhor Jesus Cristo. No deserto egípcio, nos primeiros séculos cristãos, houve muitos Padres que viveram uma vida angélica, guardando fielmente o exemplo do nosso Salvador e Deus. Houve ali profetas que, pela sua vida inspirada e admirável, cheia de virtudes, tinham adquirido energias divinas e taumatúrgicas: verdadeiros ministros e servos de Deus, sem nada de terreno no pensamento e sem se preocuparem com nenhuma das coisas passageiras deste mundo, homens que viveram verdadeiramente na terra como se estivessem na cidadania dos céus.
A força da oração comum
Neste ponto, escutemos aquele que diz: «Orai uns pelos outros, para serdes curados.»1 Escutemos Cristo, que diz que, se dois ou três estiverem de acordo na oração, qualquer pedido que fizerem será realizado.2 Grande arma é a oração da Igreja; grande muralha é a oração unânime de todos a Deus, e sobretudo do povo que permaneceu fiel no cativeiro. Que ninguém ouse dizer que Deus não escuta os pecadores. Acolhe ainda mais a súplica dos humildes, e sobretudo daqueles que sofrem pelo seu nome, que são flagelados, que são encarcerados, que são afligidos, de quem os inimigos troçam, e que, no entanto, não negaram a fé de Cristo. Há muitos e muitas que se tornaram confessores de Cristo, e Ele escuta-os imediatamente. Grande arma é a sua oração. Porque Cristo tem em conta todos aqueles que, por amor d’Ele, correm perigo todos os dias.
A forma anacorética e eremítica da vida monástica constitui o seu primeiro tipo e surgiu no Egito durante o período das perseguições, sobretudo das perseguições de Décio (249–251). Os monges eremitas, que no tempo de Santo Antão, o Grande, chegavam a 5000, desprezando a dureza do deserto, viviam sobre a areia escaldante e levavam uma vida solitária. Só aos domingos e nas grandes festas vinham à igreja mais próxima, para orarem em conjunto e comungarem dos imaculados Mistérios.
Cenóbio e eremitas
Santo Onofre conta a São Pafnúcio, o seu biógrafo, que outrora, ouvindo todos os dias os Padres do cenóbio onde vivia inicialmente louvarem os Santos do Deserto, perguntou: «Então os anacoretas têm mais confiança diante de Deus?» Eles responderam-lhe: «Sim, meu filho, são maiores do que nós, porque nós vemo-nos uns aos outros todos os dias, lemos juntos o ofício com alegria e júbilo espirituais. Quando temos fome, encontramos a mesa posta. Se algum de nós adoece no corpo ou na alma, os outros ajudam-no e servem-no com muito cuidado. Tudo aquilo de que precisamos, encontramo-lo. Mas aqueles bem-aventurados hesicastas não têm consolação humana; esperam de todo o coração apenas em Deus. Se lhes vem uma tentação do maligno, não têm ninguém que os aconselhe. Se têm fome, se ficam nus ou precisam de qualquer outra coisa, não têm nada do necessário para o corpo. Dedicam-se mais aos ofícios e às orações. Os Anjos de Deus servem-nos todos os dias, e quando a sua alma sai do corpo, recebem-na com muito cuidado e levam-na diante da Santíssima Trindade, cantando com alegria e júbilo.»
A confiança em Deus Pai
Se hoje confiássemos tudo o que nos diz respeito à existência de Deus, nosso Pai, as coisas tomariam exatamente a forma que se manifesta nas vidas dos Santos do Deserto, e sobretudo na do nosso venerabilíssimo pai Onofre, o Egípcio; isto é, não nos angustiaríamos com as preocupações da vida. Tendo a fé que, na sua forma profunda, é conhecimento da existência de Deus, nosso Pai, e vendo a nossa incapacidade de responder aos problemas da vida que exigem resposta, dirigir-nos-íamos com simplicidade ao nosso Pai e dir-Lhe-íamos: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje…».
Hoje, a vida dos eremitas da Tebaida, como a de Santo Onofre, o taumaturgo, ou é aceite e comove profundamente, ou é rejeitada como fantasiosa e irreal. Isto acontece porque apresenta o homem autêntico, que está incessantemente unido a Deus. Infelizmente, muitos de nós, cristãos, não procuram «primeiro o reino de Deus»,3 mas procuram bens materiais e espirituais. Princípio e fim é Cristo, porque é primeiro pela divindade e último pela humanidade. Diz-se também de outro modo: Cristo é o Alfa e o Ómega,4 porque estende a sua Providência desde a sua primeira criatura, os anjos incorpóreos, até às últimas, os homens. A quem tem sede de justiça, Cristo prometeu dar a graça do Espírito vivificante, que nos Evangelhos prometeu dar aos que creem n’Ele.5 E noutro lugar Cristo chama bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, quando diz: «Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.»6 Matarão a sede bebendo da fonte que jorra água da vida, e esta fonte «não é outra senão Cristo». Esta água da vida é dada gratuitamente, embora noutro lugar Ele diga que o caminho que conduz à vida exige esforço e muita violência.7 Então, que quer dizer «gratuitamente»? Quer dizer que não há medida para comparar o passageiro com o eterno, como disse Paulo: «Os sofrimentos do tempo presente não têm proporção com a glória que há de ser revelada em nós»8 (na verdade, o que sofremos agora não equivale à glória que Deus nos reserva no futuro). «Gratuitamente» significa também que a graça do Espírito vivificante não se adquire com dinheiro, mas com as boas obras da parte dos homens e com o amor de Cristo pelos homens, que a concede.
Ouvindo, pois, estas coisas, guardemo-nos de todos os lados, atendendo às palavras da Sagrada Escritura, deixando-as criar raízes profundas e purificando-nos de todas as preocupações da vida. Se fizermos umas coisas e descurarmos outras, não teremos nenhum proveito a mais. Porque, ainda que não nos percamos por causa de uma, perder-nos-emos certamente por causa da outra. Que diferença faz perdermo-nos não por causa da riqueza, mas da preguiça, ou não por causa da preguiça, mas da cobardia? Também o lavrador, quer perca a semente de um modo, quer de outro, aflige-se igualmente. Portanto, não nos console o facto de não nos perdermos de todas as maneiras, mas doamo-nos seja de que maneira for que nos percamos. E queimemos os espinhos, porque sufocam a palavra. Isto sabem-no os ricos, que não são úteis nem para isto nem para outras coisas. Porque, tornando-se cativos dos prazeres, tornam-se inúteis até para os assuntos da cidade. Se são inúteis para estes, muito mais inúteis serão para as coisas celestes. Pois é dupla a ruína do espírito que vem da riqueza: do luxo e das preocupações. Cada uma destas paixões é capaz de afundar a embarcação; mas quando ambas atuam em conjunto, consideremos quão grande será o naufrágio.
A pouca fé dos discípulos
Recordemos, neste ponto, como Nosso Senhor Jesus Cristo repreendeu a pouca fé dos seus discípulos:
Os discípulos, ao passarem para a outra margem, esqueceram-se de levar pão. Jesus disse-lhes: «Vede e acautelai-vos do fermento dos fariseus e dos saduceus.» Eles, porém, discorriam entre si, dizendo: «É porque não trouxemos pão.» Jesus, percebendo-o, disse-lhes: «Porque discorreis entre vós, homens de pouca fé, por não terdes trazido pão? Ainda não compreendeis, nem vos lembrais dos cinco pães para os cinco mil e de quantos cestos recolhestes? Nem dos sete pães para os quatro mil e de quantos cestos recolhestes?»9
Texto grego
Καὶ ἐλθόντες οἱ μαθηταὶ αὐτοῦ εἰς τὸ πέραν ἐπελάθοντο ἄρτους λαβεῖν. Ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς· ὁρᾶτε καὶ προσέχετε ἀπὸ τῆς ζύμης τῶν Φαρισαίων καὶ Σαδδουκαίων. Οἱ δὲ διελογίζοντο ἐν ἑαυτοῖς λέγοντες ὅτι ἄρτους οὐκ ἐλάβομεν. Γνοὺς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς· τί διαλογίζεσθε ἐν ἑαυτοῖς, ὀλιγόπιστοι, ὅτι ἄρτους οὐκ ἐλάβετε; Οὔπω νοεῖτε, οὐδὲ μνημονεύετε τοὺς πέντε ἄρτους τῶν πεντακισχιλίων καὶ πόσους κοφίνους ἐλάβετε; Οὐδὲ τοὺς ἑπτὰ ἄρτους τῶν τετρακισχιλίων καὶ πόσας σπυρίδας ἐλάβετε;
Que pensavam, então, os discípulos? «Que não trouxemos connosco», como sublinha o divino Crisóstomo,10 «pães». Porque ainda estavam apegados às purificações judaicas e às distinções dos alimentos. Por causa de tudo isto, Ele investe contra eles com maior veemência e diz-lhes: «Homens de pouca fé, porque pensais dentro de vós que não trouxestes pão? Ainda não entendeis nem compreendeis? Ainda tendes o coração endurecido? Tendo olhos, não vedes, e tendo ouvidos, não ouvis? Não vos lembrais dos cinco mil homens que foram saciados com cinco pães, e de quantos cestos de sobras recolhestes? Nem dos sete pães com que se saciaram quatro mil, e de quantos cestos de sobras recolhestes?» Vemos a que ponto chegou a sua indignação? Em nenhum outro lugar parece repreendê-los desta maneira. Que é, pois, que O leva a fazê-lo? Porque quer, mais uma vez, libertá-los do preconceito acerca dos alimentos. Por isso, da outra vez disse-lhes apenas: «Não entendeis nem compreendeis?», ao passo que neste caso, juntamente com a severa repreensão, chama-lhes «homens de pouca fé».
São João Crisóstomo recomenda-nos aqui que observemos que tanto a repreensão foi grande como também a sua mansidão. Como que justificando-se perante eles pelas suas severas repreensões, diz-lhes: «Não vos lembrais dos cinco pães e de quantos cestos de sobras recolhestes? Nem dos sete pães e de quantos cestos de sobras recolhestes?» E é precisamente por isso que menciona o número dos que foram saciados e das sobras, para os fazer recordar o passado e torná-los mais atentos ao que haveria de acontecer no futuro. E para sabermos quão importantes foram os resultados da sua repreensão e quanto despertou o seu entendimento, vejamos o que diz o evangelista. Sem que Jesus lhes dissesse mais nada, apenas depois de os repreender e de acrescentar à repreensão as palavras: «Como não compreendeis que não vos falei do pão, mas de vos acautelardes do fermento dos fariseus e dos saduceus?», o evangelista acrescenta o seguinte: «Então compreenderam que não lhes dissera que se acautelassem do fermento do pão, mas da doutrina dos fariseus e dos saduceus»,11 apesar de Ele não lhes ter explicado o que dissera. Notemos quantos bens resultaram desta repreensão. Libertou-os dos preconceitos judaicos sobre a distinção dos alimentos e, de negligentes que eram, tornou-os mais atentos. Libertou-os ainda da vanglória e da pouca fé, para que não temessem nem tremessem se alguma vez lhes acontecesse ter poucos pães, nem se inquietassem com a fome, mas fossem indiferentes a todas estas coisas.
Santo Onofre conta as suas lutas
Considerando o que foi dito, não nos tornemos, no nosso comportamento, homens de pouca fé, mas tenhamos presentes os anacoretas da Tebaida e todos os Santos e Anacoretas da nossa Igreja. Tomemos exemplo da sua vida e imitemo-los. Quando São Pafnúcio encontrou Santo Onofre, pouco antes de este partir deste mundo, disse a Santo Onofre:
«Sei, santíssimo Pai, que suportaste muitos trabalhos neste deserto.» Então Santo Onofre acrescentou: «Crê-me, amado, que suportei muitos tormentos com o grande calor do verão e o gelo do inverno, com a fome e outras privações do corpo. As minhas roupas desfizeram-se e fiquei completamente nu. Suportei tudo com paciência, considerando, como cada um deve fazer, os bens inefáveis que Deus preparou para os que O amam. Vendo o Senhor a minha grande aflição, aprouve-Lhe fazer crescer pelos em todo o meu corpo e, coberto por eles, já não sentia o gelo nem outro tormento. Além disso, todos os dias um Anjo me trazia pão, para que me sustentasse e servisse a Deus com maior fervor.»
Aprendamos com as vidas dos Santos da nossa Igreja, como a de Santo Onofre, o taumaturgo, e vejamos que estes homens tinham dado todo o seu ser ao Senhor sem hesitar. Vejamos que os homens de Deus, no dia em que comungam, ficam inundados de consolação espiritual. Não têm fome nem sede, nem sentem dor ou qualquer outra aflição. Os Santos de Cristo, que não fazem caso das tribulações e privações deste mundo por amor de Deus, são levados pelos Anjos ao Paraíso e, ao verem tamanho esplendor e beleza das ordens celestes, ficam deslumbrados. Tornam-se um com a luz divina, alegram-se no seu Espírito. Rejubilam e exultam abundantemente, sendo considerados dignos de tantos bens. Esquecem por completo todos os trabalhos anteriores e as angústias que suportaram.
A natureza das provações
A natureza das provações é dupla. Porque as tribulações atormentam os corações como o ouro na fornalha, provando pela paciência a sua integridade; ou, muitas vezes, a própria abundância da vida torna-se a prova para a maioria. Pois é igualmente difícil guardar a alma sem se abater nas adversidades e impedi-la de se tornar arrogante e de se desviar para a injustiça nas circunstâncias felizes. Exemplo do primeiro tipo de provação é o grande profeta Job. Tal exemplo foi também Santo Onofre: atletas invencíveis. Ambos, acolhendo com coração inabalável e ânimo imutável toda a violência do diabo, como o ímpeto de uma torrente, mostraram-se tanto mais superiores às provações quanto maiores e mais insuperáveis lhes pareciam os combates que o inimigo lhes propunha.
Se guardarmos a fé, não seremos condenados e seremos adornados com toda a espécie de virtude. Porque tanta força tem a fé, que dá aos homens a possibilidade de caminharem até sobre o mar. São Pedro era um homem como nós, que tinha carne e sangue e cresceu e se fez homem comendo os mesmos alimentos que nós. Mas quando Jesus lhe disse «vem», porque acreditou, caminhou sobre as águas,12 tendo a fé como alicerce mais seguro do que um cais e movendo levemente o seu corpo pesado, graças à leveza que a fé lhe dava. Enquanto teve fé, pisava com firmeza sobre a água. Mas quando duvidou, começou a afundar-se.13 Porque quanto mais perdia pouco a pouco a fé, tanto mais o corpo se afundava. Mas Jesus, que cura as paixões das nossas almas, conhecendo o que lhe acontecera, disse-lhe: «Homem de pouca fé, porque duvidaste?»14 E de novo, recebendo força de Cristo, que o segurou pela mão direita, e voltando a crer sob a condução de Cristo Senhor, fez de novo o mesmo percurso, caminhando sobre o mar. Este facto, isto é, que voltou a caminhar, refere-o indiretamente o Evangelho, que diz: «depois de subirem para o barco…».15 Pois não diz que Pedro subiu a nadar, mas deixa entender que a distância que percorreu caminhando sobre as ondas em direção a Jesus percorreu-a também ao regressar com Ele, para subir de novo ao barco.
«Alegrai-vos sempre, diz o Apóstolo, orai sem cessar, em tudo dai graças.»16 Consideremos o que significa este «alegrar-se», qual o proveito que dele vem e como se pode alcançar a oração incessante e dar graças a Deus por tudo. Um comentário mais extenso sobre isto, com aplicação prática para cada um de nós, pode encontrar-se na seguinte passagem de São Macário do Egito, numa tradução simples:17
A alma prudente, quando se encontra no meio dos males e da tribulação, não desespera, mas conserva aquilo que adquiriu; e por mais que Satanás a provoque com inúmeras tentações, suporta-as e diz: Ainda que eu tenha de morrer, não abandonarei a Deus. E então, se o homem suportar as tentações, o Senhor começa a dizer a Satanás: Vês quantos males e tribulações lançaste contra ele, e não te obedeceu, mas serve-Me e teme-Me. Então o diabo fica envergonhado e não tem nada a dizer. Porque também no caso de Job, se o diabo soubesse que ele, caindo nas tentações, as havia de suportar e não seria vencido, não o teria pedido a Deus, para não ficar envergonhado. Assim também agora, com os que suportam as tribulações e as tentações, Satanás fica envergonhado e arrepende-se de os ter posto em tribulação, porque nada conseguiu. Pois o Senhor começa a dizer-lhe: Concedi-to, permiti-te pô-lo à prova. Conseguiste alguma coisa? Obedeceu-te?
Texto grego
Η φρόνιμη ψυχή, όταν βρεθεί μέσα στα κακά και τη θλίψη, δεν απελπίζεται, αλλά κρατά αυτό πού έχει αποκτήσει, και όσα κι αν της προκαλέσει ο σατανάς με αμέτρητους πειρασμούς, τα υπομένει και λέει: Κι αν ακόμη είναι να πεθάνω εγώ, τον Θεό δεν τον εγκαταλείπω. Και τότε, εάν ο άνθρωπος υπομείνει τους πειρασμούς, αρχίζει ο Κύριος και λέει στον σατανά: Βλέπεις πόσα κακά και θλίψεις έφερες εναντίον του, και δεν σε υπάκουσε, αλλά υπηρετεί και φοβάται εμένα. Τότε ντροπιάζεται ο διάβολος και δεν έχει να πει τίποτε. Διότι, και στην περίπτωση του Ιώβ, αν γνώριζε ο διάβολος, ότι πέφτοντας αυτός (ο Ιώβ) στους πειρασμούς, επρόκειτο να τους υπομείνει και να μη νικηθεί, δεν θα το ζητούσε από τον Θεό για να μη ντροπιαστεί. Έτσι και τώρα, μ’ αυτούς που υπομένουν τις θλίψεις και τους πειρασμούς ντροπιάζεται ο σατανάς και μετανιώνει — πού τους έβαλε σε θλίψεις — γιατί δεν μπόρεσε να πετύχει τίποτε. Διότι αρχίζει και του λέει ο Κύριος: Στον παραχώρησα, σου επέτρεψα να τον υποβάλλεις σε πειρασμό. Μήπως πέτυχες τίποτε; Μήπως σε υπάκουσε;
Vigilância e imitação dos Santos
Muitas coisas se manifestam nas vidas dos eremitas da Tebaida. Lendo a vida de Santo Onofre, pensemos quanto nós, cristãos de hoje, verdadeiramente ficamos aquém e estamos longe desta vida divina. Centro e regra da vida do venerável Onofre foi a palavra do Evangelho: «Procurai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão dadas por acréscimo.»3 Difícil é a aplicação deste mandamento, e é necessária muita fé.
O homem moderno, pregado diante da sua televisão, como já foi dito, para ver e ouvir algo de novo, carrega em todos os botões do comando e cai sempre nas mesmas coisas, nas mesmas e nas mesmíssimas… Assim, também a sua última esperança de algo novo se apaga, e fica nas mesmas coisas…, na sua rotina…, no seu marasmo…, na sua morte… Farta-se de tédio… Por isso são necessárias vigilância espiritual e preparação constante. «Vigiai», disse o Senhor, e «estai preparados, porque o Filho do Homem vem à hora em que não pensais.»18 O Filho do Homem, o Juiz incorruptível, vem para cada um na sua morte e para todos na segunda vinda, a uma hora que não esperamos.
Os santos ensinam-nos sobretudo e inspiram-nos com a sua vida santa. Por isso, os que percorrem com coerência o caminho da virtude e da perfeição devem olhar para as vidas dos santos «como para estátuas que se movem e agem».19 As vidas admiráveis dos nossos santos são estátuas vivas, monumentos atuantes da virtude, que nos ensinam e nos chamam a «fazer nosso o bem deles pela imitação»: a imitá-los, para fazermos nossa a sua virtude. Os Ascetas do Deserto são homens que fizeram violência à sua natureza para chegarem ao que está acima da natureza, que para o homem antes da Queda era considerado natural. Homens de fé firme, não duvidam diante do milagre, que, segundo o Evangelho, eles próprios podem realizar, com a graça e o poder que Deus lhes dá. Vivem sozinhos, com o seu Ancião, a sua pequena comunidade ou o seu mosteiro (normalmente um cenóbio), estudando a palavra de Deus e alimentando-se da Divina Comunhão.
A partida do Santo para o deserto
Vejamos, neste ponto, que em Santo Onofre, depois de tudo o que os outros monges do cenóbio onde vivia inicialmente lhe contaram sobre os anacoretas, o desejo crescia dia após dia e a sua alma derretia-se de amor pela quietude. Uma noite levou consigo alguns pães e saiu do Mosteiro, pedindo a Deus que o conduzisse aonde Lhe fosse agradável que habitasse. Quando chegou ao deserto, decidiu habitar algures num monte e então viu diante de si uma luz resplandecentíssima. Cheio de medo, quis regressar ao cenóbio.
Mas logo apareceu naquela luz um homem belíssimo, admirável de ver e glorioso, que lhe disse: «Não tenhas medo, Onofre. Eu sou o Anjo de Deus, a quem Ele ordenou que te guardasse desde a hora em que nasceste até à hora em que morreres. Avança, pois, e não temas as astúcias do diabo, nem as tentações, nem nada que te aconteça. Porque eu estou contigo para velar por ti até entregar a tua alma nas mãos de Deus.» Dizendo-lhe estas coisas, o Anjo acompanhou-o durante um bom trecho até um lugar onde havia uma gruta. Então desapareceu. Santo Onofre bateu à porta da gruta e viu sair um ancião cheio de graça e virtude. Depois de lhe fazer uma prostração, o ancião abraçou-o dizendo: «Bem-vindo, meu irmão Onofre. Que o Senhor te proteja e te guarde.» Entraram na gruta e ficou junto dele alguns dias, sendo instruído em muitas coisas. Depois de o aconselhar suficientemente sobre o que é necessário para a ascese, disse-lhe: «Levanta-te, meu filho, para que te conduza a uma gruta de quietude, no deserto interior, onde o Senhor quer que habites sozinho e combatas contra o demónio, para alcançares os troféus da vitória.» Caminhando quatro dias e quatro noites, chegaram a uma pequena cabana que tinha uma palmeira e uma bela fonte, e disse-lhe: «Este é o lugar que o Senhor te preparou para habitares.» Ficou com ele trinta dias, ensinando-lhe todos os pormenores da palestra monástica. Depois foi para a sua gruta e vinha visitar o Santo, até que morreu aqui e o sepultou. O seu nome era Hérmias, da tribo de Issacar.
A Sabedoria de Sirac sobre a riqueza
Não confies nas tuas riquezas e não digas: «Tenho o suficiente.» Não sigas a tua inclinação e a tua força, andando nos desejos do teu coração, e não digas: «Quem me dominará?», porque o Senhor certamente te castigará. Não digas: «Pequei, e que me aconteceu?», porque o Senhor é paciente. Não estejas tão seguro do perdão que acrescentes pecado a pecado; e não digas: «A sua compaixão é grande, perdoará a multidão dos meus pecados», porque n’Ele há misericórdia e ira, e a sua cólera repousa sobre os pecadores. Não tardes em converter-te ao Senhor e não adies de dia para dia; porque de repente sairá a ira do Senhor, e no tempo do castigo perecerás. Não confies em riquezas injustas, porque de nada te servirão no dia da desgraça. Não joeires a todo o vento e não andes por qualquer caminho: assim é o pecador de língua dupla. Sê firme no teu entendimento, e seja uma só a tua palavra. Sê pronto para ouvir e responde com paciência. Se tens entendimento, responde ao teu próximo; senão, põe a mão sobre a boca. Glória e desonra vêm do falar, e a língua do homem é a sua ruína. Não sejas chamado murmurador, nem armes ciladas com a tua língua; porque sobre o ladrão está a vergonha, e uma condenação severa sobre o de língua dupla. Nas coisas grandes e nas pequenas, não procedas mal.20
Texto grego
Μὴ ἔπεχε ἐπὶ τοῖς χρήμασί σου καὶ μὴ εἴπῃς· αὐτάρκη μοί ἐστι. Μὴ ἐξακολούθει τῇ ψυχῇ σου καὶ τῇ ἰσχύϊ σου τοῦ πορεύεσθαι ἐν ἐπιθυμίαις καρδίας σου, καὶ μὴ εἴπῃς· τίς με δυναστεύσει; ὁ γὰρ Κύριος ἐκδικῶν ἐκδικήσει σε. Μὴ εἴπῃς, ἥμαρτον, καὶ τί μοι ἐγένετο; ὁ γὰρ Κύριός ἐστι μακρόθυμος. Περὶ ἐξιλασμοῦ μὴ ἄφοβος γίνου, προσθεῖναι ἁμαρτίαν ἐφ᾿ ἁμαρτίαις· καὶ μὴ εἴπῃς· ὁ οἰκτιρμὸς αὐτοῦ πολύς, τὸ πλῆθος τῶν ἁμαρτιῶν μου ἐξιλάσεται· ἔλεος γὰρ καὶ ὀργὴ παρ᾿ αὐτοῦ, καὶ ἐπὶ ἁμαρτωλοὺς καταπαύσει ὁ θυμὸς αὐτοῦ. Μὴ ἀνάμενε ἐπιστρέψαι πρὸς Κύριον καὶ μὴ ὑπερβάλλου ἡμέραν ἐξ ἡμέρας· ἐξάπινα γὰρ ἐξελεύσεται ὀργὴ Κυρίου, καὶ ἐν καιρῷ ἐκδικήσεως ἐξολῇ. Μὴ ἔπεχε ἐπὶ χρήμασιν ἀδίκοις· οὐδὲν γὰρ ὠφελήσει σε ἐν ἡμέρᾳ ἐπαγωγῆς. Μὴ λίκμα ἐν παντὶ ἀνέμῳ καὶ μὴ πορεύου ἐν πάσῃ ἀτραπῷ· οὕτως ὁ ἁμαρτωλὸς ὁ δίγλωσσος. Ἴσθι ἐστηριγμένος ἐν συνέσει σου, καὶ εἷς ἔστω σου ὁ λόγος. Γίνου ταχὺς ἐν ἀκροάσει σου καὶ ἐν μακροθυμίᾳ φθέγγου ἀπόκρισιν. Εἰ ἔστι σοι σύνεσις, ἀποκρίθητι τῷ πλησίον· εἰ δὲ μή, ἡ χείρ σου ἔστω ἐπὶ στόματί σου. Δόξα καὶ ἀτιμία ἐν λαλιᾷ, καὶ γλῶσσα ἀνθρώπου πτῶσις αὐτῷ. Μὴ κληθῇς ψίθυρος, καὶ τῇ γλώσσῃ σου μὴ ἐνέδρευε· ἐπὶ γὰρ τῷ κλέπτῃ ἐστὶν αἰσχύνη, καὶ κατάγνωσις πονηρὰ ἐπὶ διγλώσσου. Ἐν μεγάλῳ καὶ ἐν μικρῷ μὴ ἀγνόει.
Nada pode ser apresentado como desculpa quando tivermos em conta o fogo da geena que nos consumirá naquele tempo em que, por causa de um pequeno desvio e de um pouco de suor, teremos perdido o céu e os bens indescritíveis. Porque o tempo é breve e o esforço pequeno; e, no entanto, corrompemo-nos e caímos de novo em decadência moral, pior até do que a que caracterizava os homens dos tempos antigos. Na terra lutas e nos céus és coroado; és castigado pelos homens e honrado por Deus; corres dois dias e és premiado eternamente; lutas com o corpo corruptível e as honras são dadas ao incorruptível.
Os eremitas da Tebaida e de Nítria parecem-nos, embora vivam num deserto abrasador e estéril, semelhantes a homens felizes e bem-aventurados, numa estufa admirável de gigantes da virtude e do espírito. Considerando estes gigantes da fé, não confies nas tuas riquezas e não digas «tenho dinheiro suficiente». Não sigas os apetites da tua alma e a consciência da tua força corporal e do teu poder sobre os outros, de modo a andares segundo os maus desejos do teu coração. Este cativeiro começou na própria fonte do género humano. O primeiro homem, antes de ter descendência, tornou-se escravo e cativo do pecado. O grande captor é Satanás, o inimigo de Deus e do homem. Usa o mundo e a carne e arrasta os seus cativos pelo lodo. «Anunciou a libertação aos cativos, e realizou-a, tendo amarrado o forte, Satanás, que tiranicamente e com violência dominava o nosso género, e tendo-nos arrebatado a nós, os seus despojos.»21
A liberdade do Evangelho
O evangelho do Messias é mensagem e proclamação de liberdade, como a dada a Israel no Egito e na Babilónia. Pelo mérito de Cristo, os pecadores são libertados dos laços da culpa e, pelo Espírito e pela graça, das cadeias da corrupção.
É libertação da pior escravidão, de que gozam todos os que fazem de Jesus a sua cabeça e querem ser governados por Ele. O Messias veio não só para, pela palavra do seu evangelho, levar a luz aos que estão sentados nas trevas, mas também para, pelo poder da sua graça, dar a vista aos que eram cegos. O tempo da nossa vida é pouco; breve é a oportunidade de salvação. Quando, pois, desperdiçamos este breve tempo que nos foi dado para aprendermos algo de útil, a ouvir palavras supérfluas, inúteis e nocivas, quando encontraremos outro tempo para aprender o necessário e urgente? Porque, mesmo que o tempo da nossa vida fosse longo, deveríamos dedicá-lo ao que é útil. Mas agora que é pouco e breve, como não será ato da maior insensatez desperdiçar até este pouco tempo em ensinamentos que corrompem a nossa alma? Que necessidade tens de remédio? Não aceites a ferida, para não gastares o teu tempo a curar o que recebes dos outros. Assegura a tua saúde a partir das divinas Escrituras e, se vier alguém que te diga outra coisa, fecha os ouvidos, afasta-te depressa dele e não te demores nada.
A matemática de Deus
O espírito de Cristo ultrapassa a lógica comum. Abole até a matemática dos homens. Quando Cristo Se sentou e observava o que cada um lançava no «gazofilácio», o tesouro do templo, e viu uma viúva pobre que lançou duas pequenas moedas, disse que ela «deitou mais do que todos»: deu mais, porque deu todo o seu sustento, «tudo o que tinha».22 A matemática verdadeiramente superior é a matemática de Deus. A esperança de gozar os bens eternos, a glória incorruptível e a alegria inefável do reino celeste sustenta-nos nas nossas provações e inspira-nos nas lutas desta nossa vida pequena e passageira, que não é senão um instante insignificante perante a eternidade sem fim.
O homem e a criação
O homem é o reflexo luminoso da natureza. Natureza e homem devem coexistir harmoniosamente e ser continuamente santificados pelo Espírito Santo. Nunca um deve funcionar à custa do outro… Se isso acontece, temos unilateralidade, heresia, desvio, desequilíbrio, destruição. Sem a natureza e a criação, o homem é inconcebível. E sem o homem, a natureza não é valorizada nem santificada… Aqui se demonstra a interpenetração mútua da natureza racional e irracional. Os Eremitas, nas suas celas inacessíveis, «nas grutas, nos montes e nas cavernas da terra»,23 procuram reviver a Nova Criação do estado anterior à Queda, e muitos dos anciãos procuram chegar da imagem à semelhança. As verdadeiras dimensões do homem são as dimensões de um filho perante o seu Pai. Assim como os filhos só querem amar o pai e a mãe e ser amados por eles, e não se preocupam com os seus problemas, confiando que os pais tratarão deles, assim exatamente quer Deus que se moldem as nossas relações com Ele. Por isso, quando os discípulos perguntaram a Cristo como deviam orar, isto é, como deviam comunicar com Deus, Cristo indicou-lhes a oração de pai e filho:
Pai nosso, que estais nos céus, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do maligno. Ámen.24
Texto grego
Πάτερ ἡμῶν ὁ ἐν τοῖς οὐρανοῖς, ἁγιασθήτω τὸ ὄνομά σου, ἐλθέτω ἡ βασιλεία σου, γενηθήτω τὸ θέλημά σου, ὡς ἐν οὐρανῷ καὶ ἐπὶ τῆς γῆς. Τὸν ἄρτον ἡμῶν τὸν ἐπιούσιον δὸς ἡμῖν σήμερον· καὶ ἄφες ἡμῖν τὰ ὀφειλήματα ἡμῶν, ὡς καὶ ἡμεῖς ἀφίεμεν τοῖς ὀφειλέταις ἡμῶν· καὶ μὴ εἰσενέγκῃς ἡμᾶς εἰς πειρασμόν, ἀλλὰ ῥῦσαι ἡμᾶς ἀπὸ τοῦ πονηροῦ. Ἀμήν.
Esta página contém uma pequena homenagem a Santo Onofre, meu protetor, que, com as suas súplicas ao Senhor, me ajudou e me ajuda em situações difíceis.
Jason Digalakis
Tg 5,16. ↩︎
Cf. Mt 18,19–20. ↩︎
Cf. Ap 1,8; 22,13. ↩︎
Cf. Jo 4,14. ↩︎
Mt 5,6. ↩︎
Cf. Mt 7,14. ↩︎
Rm 8,18. ↩︎
Mt 16,5–10. ↩︎
João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de Mateus. ↩︎
Cf. Mt 16,11–12. ↩︎
Mt 14,29. ↩︎
Mt 14,30. ↩︎
Mt 14,31. ↩︎
Mt 14,32. ↩︎
1 Ts 5,16–18. ↩︎
São Macário do Egito; passagem traduzida a partir de uma versão em grego moderno. ↩︎
Mt 24,42.44; 25,13. ↩︎
Basílio Magno, Carta 2, a Gregório, seu companheiro, EPE 1, 68. ↩︎
Sir 5,1–15. ↩︎
Cf. Lc 4,18. ↩︎
Mc 12,41–44. ↩︎
Hb 11,38. ↩︎
Mt 6,9–13. ↩︎
Bibliografia
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Livros litúrgicos e hagiográficos
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- Πάσχα, Υιοί Β. Ν. Ακολουθία e βίος της Αγίας ενδόξου Μεγαλομάρτυρος e Αθλοφόρου του Χριστού [Κυριακής]. 2.ª ed. Αθήνα: Ανδρέας Β. Πάσχας, 1914.
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Artigos
- Αντίπας (Αρχιμ., Καθηγούμενος e Πατριαρχικός Έξαρχος Πάτμου). «Από ομιλία στο Πνευματικό Κέντρο της Ιεράς Αρχιεπισκοπής Κρήτης (23/2/2003)». Αναγέννησις (Ιερό Ησυχαστήριο Αγίας Φωτεινής, Ελληνοπεράματα Ηρακλείου Κρήτης) (Μάρτιος–Απρίλιος 2003): 3698–3699.
- Παπαβαρνάβας, Γεώργιος (Πρωτοπρ.). «Όσιος Ονούφριος». Εκκλησιαστική Παρέμβαση (Ιερά Μητρόπολις Ναυπάκτου e Αγίου Βλασίου). http://www.parembasis.gr/2006/06_06_06.htm.
Fontes em linha
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- Αποστολική Διακονία της Εκκλησίας της Ελλάδος. Η παρουσία του χριστιανικού ναού. http://www.apostoliki-diakonia.gr/gr_main/catehism/theologia_zoi/themata.asp?contents=art/contents_naos.asp&main=naos&file=page11.htm.
- Ιερός Ναός Αγίου Ελευθερίου Περιστερίου. Συναξαριστής Ιουνίου. http://www.agioseleytherios.gr/agioseleytherios/php/index.php?pg=synaksarioJun.
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